sábado, 31 de março de 2012

BILDERBERG, O SEGREDO

Existe uma organização que não sendo secreta, é formada por indivíduos muito poderosos, os mais ricos banqueiros, os magnatas da imprensa, etc, a elite da elite; reúnem-se uma vez por ano, durante três dias: Refiro-me ao chamado "CLUBE BILDERBERG", criado em 1954 pelo Principe Bernhard da Holanda, sob proposta de Jósef Retinger, com o propósito de promover a discussão critica entre as culturas da Europa Ocidental e dos EUA.

Do conteúdo das suas reuniões nada é comunicado à imprensa. Há os membros permanentes e os "convidados" que vão mudando de ano para ano. Muita gente desconfia de tanto secretismo, ao que eles argumentam que querem apenas estar à vontade para discutir abertamente entre si, sem serem interpretados pelos mídia. Em verdade nada obriga a que um grupo de cidadãos reunidos tenha de publicar seja o que for. A questão que se levanta tem a ver com os objectivos por eles definidos como "um diálogo franco e aberto para promover a discussão entre os EUA e a Europa Ocidental", como se não existissem já bastantes organizações que permitam esse diálogo. Necessariamente, a suspeição paira sobre os seus verdadeiros objectivos.

O poder detido por cada um de nós encontra-se circunscrito ao mundo que nos rodeia;  tarefas do dia a dia, responsabilidades, vida familiar, trabalho... No entanto forças que ninguém parece controlar, determinam grandes mudanças, afectam a nossa vivência, deixam-nos impotentes face ao futuro, perdemos a perspectiva numa época em que ficámos sem poder.

Essas forças são dirigidas por homens cujos limites são muito diferentes dos nossos. Eles decidem do destino e da vivência de centenas de milhões de pessoas, determinam os empregos a criar onde e como, que tecnologias desenvolver, gadgets que consumiremos, e em última análise o género de mundo concentracionário onde viveremos confinados. Esses seres de elite transcendem tudo o que nos limita, detêm o poder de mudar as nossas vidas quando lhes apetece, para melhor ou para pior. Importa sublinhar que a detenção de tal capacidade, é-lhes oferecida e até desejada por eminentes personalidades da vida politica, da imprensa e da industria.Vejamos como.

Não se trata de qualquer entendimento secreto no sentido conspiracionista. É muito mais subtil; personalidades influentes de diversas áreas, eventualmente hesitantes ou que tenham dúvidas relativamente à globalização, ou a determinadas politicas anteriormente desenhadas por estes senhores, são convidadas a participar durante três dias a tão estrito clube, acolhidos num luxo fastuoso, tomam parte de conversa com os mais ricos e poderosos homens da Industria, da informação e da politica. Não há ego que resista. Uma vez que o convidado se identifique com os seus anfitriões sente-se parte deles, como se se tornasse também  detentor do poder e da riqueza que o rodeia.

Estes encontros servem também para auscultação de políticos em ascensão ou julgados promissores, de forma a delinear o seu perfil, ajudá-los na conquista do poder e assim garantir um seguidor e não um inimigo. A mensagem é a seguinte: o que é bom para a banca e para os grandes grupos económicos é bom para as pessoas. Quanto mais riqueza concentrada, mais economia, quanto mais economia mais industria, quanto mais industria mais trabalho, quanto mais trabalho mais....Dentro destas premissas é que se delineiam politicas económicas, relações com países detentores de matéria prima considerada vital para o modelo de sociedade que escolhem.

Seguem aqui o nome algumas personalidades que atenderam a estas conferencias antes de serem investidos de poder:
-  Lionel Jospin, atendeu á conferencia em 1996, torna-se 1º Ministro da França no ano seguinte.
- Donald Rumsfeld, atendeu á conferencia em 2000, torna-se secretário de defesa dos EUA em 2001
- George Robertson, atendeu á conferencia em 1998, secretário geral da Nato no ano seguinte.
- Jacques Santer, atendeu á conferencia em 1991 eleito presidente da comissão Europeia em 1995
- Romano Prodi,  faz parte do comité Bilderberg desde meados dos anos 80, presidente da Comissão
   Europeia  em 1999.
- Tony Blair, atendeu á conferencia em 1993, torna-se líder do partido em 1994 e 1º ministro da Inglaterra
   em 1997
- Michel Rocard, fez parte do clube até se tornar 1º ministro da França em 1988
- Bill Clinton, atendeu á conferencia do clube em 1991, tornou-se presidente dos EUA em 20 Janeiro 1993

A lista poderia continuar, mas não caberia nas modestas pretensões deste post. No entanto não resisto a uma pequena referencia aos políticos portugueses que também atenderam ás conferencias antes de serem investidos de poder:
- Durão Barroso atendeu em 2004 tornou-se presidente da Comissão Europeia meses depois.
-Santana Lopes atendeu com Durão barroso tornando-se 1º ministro com a saída de Durão Barroso.

Além de homens politicos, deixo aqui mais uns nomes de "Bilderbergers"
Henry Kissinger, Rainha Beatriz de Holanda, David Rockfeller, Evelyn Rothschild, Bill Gates, Pinto Balsemão, Frank Mckenna Td Bank Financial Group, Jean Claude Trichet prsidente Banco Europeu até 2011, Ben Brenanke, presidente da reserva federal dos EUA, Joseph Ackermann, presidente de Deutsche Bank.

Para além do direito de se reunirem, teremos também de atender ao facto de estas pessoas transportarem especiais responsabilidades para com a sociedade, pela sua capacidade em manipular a informação, conjugada com a concentração de um imenso poder económico e politico. Logo, isto diz-nos respeito, porque determina as nossas vivências. Consequentemente, a natureza secreta destas conferencias desrespeita os princípios de inclusão próprios a uma sociedade transparente e democrática.

Sem pretender os condenar sem conhecer as suas intenções, acredito que por uma questão de ética e transparência, deverão ultrapassar a questão essencial do secretismo, sob pena de darem razão a quem os acusa de conspiração global contra a Humanidade.

sexta-feira, 30 de março de 2012

A MÃO DO BANQUEIRO




Inquieto, preocupado, angustiado por ver tantas mãos estendidas pela rua, entrei no banco afim de conferir se o demónio do banqueiro  me tinha ido aos bolsos novamente.

Foto: Alexandre Afonso Gonçalves

Esperei a minha vez, de mãos nas algibeiras, tranquilo, quando sinto uma mão acariciando-me a nuca. Percorre-me como um calafrio. Será do ar condicionado, ou cresceu-me uma terceira mão? Surpreendi-me então a contar as mãos,...pelos dedos; confirmado: duas mãos.

A meu lado a minha mulher aguardava comigo, impacientando-se com a demora, uma mão enfiada no bolso da frente, outra no detrás das calças. Foi quando me dei conta que a  mão que ela tinha de trás...era minha.
Voltei a contar, mas antes mesmo de concluir a difícil operação pensei: "não será melhor descontar?", na dúvida... Mexendo os dedos (para o cálculo mental) no bolso do traseiro dela, apercebo-me que a mão no bolso da frente das calças dela....talvez fosse minha também.

Inquietei-me deveras, sabendo que não lhe podia perguntar nada; é tão má com os números. Já era tempo de fazer o ponto da situação: se ela tinha uma mão na minha nuca, e outra no meu bolso detrás, perfazia duas mãos da parte dela. Por mim, atendendo que uma mão lhe escoltava o bolso traseiro, outra no frontal.... mas então, a outra, no meu bolso da frente?

Quando entro num banco sinto-me invariavelmente enganado com os números.

Desconfiámos os dois ao mesmo tempo; talvez... não fosse uma mão. Decidimos ir para casa, em simultâneo, para conferir as contas.

E saímos do banco...de mãos dadas.

INSTRUÇÕES PARA CHORAR


Dos tempos parados, ou dos que correm, (sabemos como isso é relativo), resulta o mal estar propício à melancolia, tristeza e finalmente o choro. Chorar tem método e regra; é favor não desperdiçar choros à toa. Aqui fica o método para chorar como se deve, de acordo com Júlio Cortázar em: "Histórias de Cronópios e Famas" 

O mimo: Marcel Marceau

INSTRUÇÕES PARA CHORAR

Deixando de lado os motivos, atenhamos-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente.

***

Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas, ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.
Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferencia num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Lobby Censura Blogueiro



Os lobbys têm honra? O conhecido bloguista espanhol Enrique Dans, mal podia acreditar no que lia, quando se encontrou convocado para inquérito na sequência de uma queixa promovida pela PROMUSICAE (Associação de Produtores de Música de Espanha).

A Promusicae, associação lobbyista da industria musical espanhola é detentora de 92% do mercado musical do país, impede as discográficas que não usem a plataforma "Ritmonet" o acesso ao mercado e inclusive ás rádios; e como para usar e referida plataforma é preciso associar-se.... O Enrique Dans, num post muito bem documentado, ousou denunciar o monopólio, questionando inclusive a legalidade da situação.

 E o inacreditável aconteceu: A Promusicae apresenta queixa reclamando entre 20 000 e 50 000Euros ao bloguista por "atentado á sua honra". A lógica, perante um post de opinião, seria quanto muito de responder por uma explicação ou melhor ainda ignorar o artigo de opinião do Enrique Dans, subtraindo assim importância ao mesmo. Em vez disso, como se imaculada, e não representasse efectivamente os tais 92% da industria musical espanhola, como se isso não substantivasse de facto uma posição de monopólio, acha-se no direito de apresentar queixa por "infracção á sua honra".

Como resultado a queixa chamou a atenção do mundo (o mundo musical, mas não só esse) para o blog, e para o seu conteúdo. E a verdade, é que o Enrique Dans não é homem de falar ao acaso; recebeu queixas de discográficas independentes condenadas a desaparecer ou se submeter à Promusicae, questionou a legalidade socorrendo-se de legalistas, inquiriu junto ás rádios...Também é verdade que o blogueiro já incomodou muito, inquirindo sobre os escândalos em que está envolta a "Sociedade General de Autores y Editores", (SGAE), e a rede mafiosa de sociedades fantasmas associada, cujos membros foram traduzidos e inculpados por tribunal ultimamente.

A Promusicae, vivia tão bem, intocada, sem concorrência, com apoios ao mais alto nível... Quando o blogueiro denuncia a situação, colocou em causa para o grupo monopolista, o controle ao acesso á musica em Espanha, nada mais, nada menos. Então decidiu tentar calar o blogueiro, pois os elevados custos legais e a morosidade processual bastariam para tanto. Por demais também teria um efeito dissuasor para quem se atrevesse a denunciar a mesma situação monopolista.

Nas palavras do próprio blogueiro:" Após muitos anos de enfrentamento directo e de os humilhar em repetidas ocasiões em numerosos forums de debate público, agora querem calar-me mediante queixas legais. Querem que não os mencione, que não fale deles. Que pela pressão de uma possível queixa me abstenha de opinar sobre eles. Que fale de outras coisas que os deixe em paz. É assim tão simples. Para Promosicae, esta demanda é completamente insignificante: só os honorários dos seus advogados supera o valor que me pedem em danos á sua honra. Para mim, em contrapartida, é uma barbaridade.....Coagir a liberdade de expressão de uma pessoa ou a liberdade de cátedra de um professor, ou a liberdade de informação, porque  eu não tenho actuado responsavelmente, dizendo aquilo que me vinha à cabeça. Tenho recebido denúncias de pequenas discográficas que se sentem prejudicadas por esse sistema, as tenho investigado para ver se tinham base, tenho consultado com peritos do ramo, tenho-me documentado...e acredito que o direito à informação também me assiste neste caso."

 Se alguma honra ainda tinha, a Promusicae, perdeu-a na totalidade ao tomar esta iniciativa!

O endereço do blogueiro: http://www.enriquedans.com/

terça-feira, 27 de março de 2012

Desvendando Dogmas


Todas as organizações humanas exigem o cumprimento de um conjunto de regras não escritas como um elo ausente da corrente. Quem fizer parte de uma organização é suposto conhecê-las; frequentemente a sua obediência ultrapassa em importância as regras mais explicitas e que se advogam repetidamente. Então porque existem regras "não escritas", para que, e a quem servem?

A garantia de sobrevivência de uma organização supõe desde logo um código escrito, em termos ideológicos filosóficos ou outros, claramente exposto, com o qual o aderente se identifica e subscreve. Algumas dessas regras também servem para proteger a própria "associação" de outras que lhe sejam concorrentes, entre partidos políticos por exemplo, ou simplesmente do mundo exterior, como no caso de organizações secretas.

Nos partidos políticos, promoção interna dos militantes encontra-se legitimada por estatutos democráticos, na medida em que é submetida ao voto. Em consequência o acesso a um lugar de destaque dentro do partido supõe também um "estágio de militantismo" obrigatório. Mas não é assim; na realidade basta o chefe convidar um amigo a integrar o partido, outorgar-lhe um lugar e fazê-lo saber. Um partido politico tem, por natureza, vocação de poder. A noção de poder é tão forte que impregna e condiciona toda a convivência partidária obediente a uma estrutura piramidal, em que as bases normalmente se limitam a "repetir estupidamente" o discurso da cúpula. A essa regra não escrita se chama "boas práticas", ou "confiança politica". A não observância das "boas práticas" é bem pior que um desviu ideológico, ou um desacordo com tal ou tal outra decisão do líder, acarretando para o infractor a perda de influencia ou a esperança de ascensão a qualquer cargo. O essencial é não tornar pública qualquer dúvida relativamente ao que o "chefe" opinou. Só há um caso em que isso pode ocorrer: quando há uma luta pela liderança dentro do partido.

Nas organizações secretas, como é o caso da maçonaria, as regras escritas consubstanciam o ritual, cujo significado o iniciado é convidado a ir descobrindo ao longo da sua aprendizagem. Chamam-se irmãos, independentemente do grau a que ascenderam, e tal como nos partidos as pessoas se tratam por tu; porém a primeira determinação relativamente ao "neófito" é que este nada sabe: é como uma criança acabada de nascer e nenhuma imposição, palavra ou opinião do mestre é discutível ou susceptível de ser posta em causa, sob nenhum pretexto. O iniciado é convidado a jurar que nada do que ali viu, ou ouviu, será divulgado para o exterior, sendo esse juramento renovado em cada cerimônia. Como em todas as organizações humanas diversos temperamentos, distintas formas de encarar os assuntos, em suma pessoas diferentes umas das outras, convivem num espaço onde fatalmente haverá desacordos, e por vezes até inimizades. Mas continuam chamando-se "irmãos".

Se porventura acontece um problema a um irmão, os outros são supostos socorrê-lo, porque são "irmãos". Na realidade, se este mesmo irmão teve algum diferendo com um irmão mais poderoso, mais influente, haverá que o pôr a andar dali. Se um irmão de grau mais baixo se demarcar pela capacidade intelectual, trata-se de o despreciar e tentar lhe esterilizar o pensamento, inscrevendo-o desde logo numa cronica de morte anunciada. Por conformismo, inercia ou cobardia, não haverá solidariedade de ninguém; a regra não escrita é simples: guardemos o nosso entre nós, e o iniciado que não o entenda assim só tem uma coisa a fazer: ir-se. Ou esperar que o empurrem.

Quando se adere a uma qualquer organização, imbuí-se de ingenuidade, e exclama-se: "finalmente, estou entre os meus!". Recebidos de abraços abertos, confraternizando, debatendo, partilhando idéias, ah, como nos enganamos a nós próprios. Como nos desiludimos com as organizações, por mais humanitárias que pareçam, por mais altos os ideais que proclamem; mas a decepção morre sem culpa a não ser a do próprio decepcionado, porque insistiu em acreditar.





sábado, 24 de março de 2012

Possuído pelo Banqueiro



Compro os jornais e o tabaco sempre no mesmo sitio: no quiosque da avenida Mota Pinto junto á agência de seguros com caixa multibanco.

     Fotografia por: Alexandre Afonso Gonçalves
 Amiúde, encontra-se ali aquele homem sentado no exterior, com os olhos fixos ora na caixa Multibanco, ora na seguradora, sem pedir nada a ninguém. A minha natural timidez resistiu estoicamente durante semanas á curiosidade, mas esta acabou impondo-se:
- O senhor, digo, ao abordar o individuo, desculpe, mas está esperando alguém ou tem falta de alguma
   coisa?
Ele olha-me de soslaio, sem mexer um sobrolho, aceitando com a ponta dos dedos o cigarro que lhe estendo .
- Alguma coisa vai mal? pergunto, enquanto lhe dou lume com o isqueiro, posição que, não obstante
   os críticos do tabaco, aproxima mais as pessoas.
- Sim! Estou possuído, responde sucintamente.
- Possuído? Oh, homem pelos tempos que correm....
- Precisamente, pelos tempos que correm, aquiesça. Os tempos correm a favor deles!.
- Deles quem?, tento perceber.
- Dos banqueiros, claro está! Porque julga que o tempo passa tão depressa? É por causa dos juros, ainda
   não percebeu? São os dias curtíssimos, as semanas que fogem, os meses que galopam, e eles aproveitam.
- Ah, digo balançando o queixo, sem saber que responder a isto. E o senhor está possuído pelo tempo, se
   percebi...
- Não, não percebeu! Estou possuído pelo banqueiro!
- Como assim?
- Tudo começou quando assinei aquela letra. Paguei, paguei, e afinal parece que nunca está paga. Aquele
   papel é na realidade a venda da alma; mas as pessoas não sabem.
- E então ficou possuído?
- De inicio, apenas rondava a minha casa. Depois começou a poisar no ramo mais alto do pinheiro, abrindo
   e fechando os braços como se quisesse voar. Mais tarde, começou a povoar os meus sonhos, e como
   os tempos correm com juros, finalmente fez falir a empresa onde eu trabalhava.
- E o senhor, o que fez? Como se defendeu?
- Fui falar com o padre!
- Para?...
- Para me exorcizar, naturalmente.
- Conseguiu?
- O padre é boa pessoa, mas explicou que um banqueiro não é um demónio qualquer. Tem apoios no
   Estado e até no Vaticano.
- Não compreendo o que você  faz aqui; há semanas que o observo...
- Sabia que o banqueiro também é dono da seguradora que está à nossa frente? Ele vai sair daquela caixa
   multibanco e entrar imediatamente na porta ao lado, para assinar um seguro de vida.
- Os banqueiros precisam de seguro de vida?
- Porque pensa que eles criaram as seguradoras? Para se assegurarem, não percebe?
- Bem, eu até tenho o seguro do carro naquela agência.
- Não percebe mesmo! Os nossos seguros financiam os deles próprios; e no final, só servem mesmo para
   eles se assegurarem de tudo.
- Não respondeu à pergunta: para que precisa um banqueiro de seguro de vida?
- Porque é a única coisa que ele tem a perder, objecta, tirando um pau muito afiado debaixo do casaco.
   Está a ver? Isto é o que se usa para matar demónios e vampiros.
- Mas, se ele perde a vida, para que precisa de seguro, insisto.
- Um banqueiro pretende ficar a ganhar mesmo na morte. Por isso tenho de o interceptar antes dele entrar
   na seguradora.
Como me preparava para ir embora, tirei mais um cigarro para mim e ofereci-lhe outro.
- Só mais uma coisa: suponho que ficou sem nada!...
- Não senhor! Isso é o que ele realmente pretende, mas apenas levou a riqueza exterior. A outra, ele desconhece, nem suspeita que existe.

Levitação de Sofá


Esta manhã, depois de uma noite demasiado curta, dava-me jeito executar as tarefas do dia simplesmente pela força do pensamento. Depois, voltaria para a cama e dormiria mais uma soneca. Só de pensar que deverei deslocar o sofá da sala para a cave já sinto uma dor nas costas. Mas, vamos lá ver, a levitação, essa coisa que chamam psicocinese, terá mesmo jeito de funcionar? Há algum desenvolvimento técnico que me permita simular a mesma coisa?

À primeira vista a psicocinese parece impossível; desde logo porque o ser humano não acumula energia suficiente para influir sobre a matéria;
Pelo menos assim me dita a razão...
No entanto, toda a gente, viu na televisão, o famoso físico Stephen Hawking utilizar um sintetizador de voz ou usar um computador com um simples olhar.
Os Aparelhos de interface servem para amplificar os sinais emitidos pelo pensamento sendo depois enviados para um computador. A partir daí as variadas tecnologias permitem monitorizar as máquinas  interligadas com este. Fiquei sabendo isto depois de uma pequena investigação, acompanhada de um bom café, enquanto o sofá permanece no mesmo lugar.

Parece que ficou famoso, ou pelo menos ficou nos anais da ciência, o caso de Matthew Nagle. O rapaz permaneceu paraplégico na sequencia de uma rixa em que foi defender um amigo e levou com uma faca que o deixou naquele estado. Vai daí, começou a grande aventura: sobre a parte do cérebro que coordena a atividade motora foi-lhe implantado um chip ligado a um amplificador, por via de fios de ouro, sendo os sinais enviados para computador munido de um software capaz de reconhecer alguns padrões criados pelo cérebro e de os traduzir em movimentos mecânicos. Ouf, milagroso, não? Mas infelizmente aquele sofá permanece onde estava.

Teimando um pouquinho mais no tema,  fico a pensar ; se não dispomos de energia suficiente para re-arranjar a matéria, como intervir com ela a nível atômico? Imaginemos que possamos implicar com uma parcela de molécula; estaríamos então a interferir com o intimo da matéria. E logo talvez já possa deslocar uma porção (ínfima) do sofá, sentado aqui ao computador.

O problema também deriva de mim próprio; sou pouco dado a treinos de concentração yogi, budista...ficaria tão cansado que preferia transportar "aquilo" às costas! Felizmente parece que o microscópio a efeito de túnel permite deslocar, manualmente um átomo de cada vez e reconstruir a matéria sob formas diferentes da original. Se dispuséssemos de um microscópio deste tipo, adequado a deslocar vários átomos em simultâneo, e esse aparelho ligado a um processador capaz de interpretar os nossos pensamentos, obteríamos a capacidade de agir sobre qualquer matéria simplesmente pela força do pensamento. Isto dependeria da capacidade de mapear o cérebro com precisão, amplificar os sinais por ele emitidos e desenvolver software para os interpretar. Se alguém dispor dessa tecnologia, é favor dizer com urgência, antes da minha mulher trazer o cabo da vassoura, por causa do maldito sofá que não se mexe dali apesar do meu esforço de investigação.

As possibilidades tornam-se infinitas se pensarmos numa impressora 3D como as que existem há algum tempo, em que poderíamos pela força do pensamento criar qualquer objecto a qualquer distancia, bastando para tal uma linha de comunicação entre o interface cérebro-máquina e a impressora. Aliando as duas tecnologias obteríamos um "replicador" como aquele que vimos em "Star Treck", um aparelho que nos permitiria simplesmente construir tudo aquilo que alguma vez necessitaríamos; bastando emitir um desejo...

Para agir sobre a matéria a nível molecular existe outra tecnologia em pleno desenvolvimento; os nanobots são micromáquinas, na ordem do 0.1 a 10 micrômetros (1 micrometro = um milésimo de milímetro) possivelmente auto-replicantes, isto é: serão capazes de se replicar. Naturalmente esta tecnologia nada tem a ver com a psicocinese, a não ser pelo desejo do homem operar ao nível intimo da matéria. Eu terei de operar sobre o sofá, portanto não me alongarei muito mais. Ah, como a varinha do Harry Potter daria jeito!

Na verdade existe uma espécie de "replicador" que a natureza levou cerca de três milhões e meio de anos a desenvolver, e graças ao qual eu estou escrevendo estas linhas e você lendo-as. Chama-se ADN.

Mas já estaríamos abordando outra questão, e tenho ainda que tratar do sofá!

sexta-feira, 23 de março de 2012

O Cachimbo de Espuma e o Rouxinol

A primavera chegou para nos recordar o renascer de todas as coisas, e quiçá relembrar alguns daqueles poemas de adolescência. Aqui ficam doces memórias:

                                                    A Balada de Hans e Jenny

Verdadeiramente, nunca  foi tão claro o amor, como quando Hans Christian Andersen amou a Jenny Lind, o Rouxinol de Suécia.
Hans e Jenny eram sonhadores e belos e o seu amor partilhavam-no como dois colegiais partilham as suas amêndoas.
Amar Jenny era como ir comendo uma maçã debaixo da chuva. Era estar no campo e descobrir que hoje amanheceram maduras as cerejas.
Hans costumava contar-lhe fantásticas histórias do tempo em que os blocos de gelo eram os grandes ursos do mar. E quando chegava a primavera ele cobria-lhe com silvestres tussilagos as tranças.
O olhar de Jenny povoava de dominicais cores a paisagem.
Bem poderia Jenny Lind ter nascido numa caixa de aguarelas.
Hans tinha uma caixa de musica no coração e um cachimbo de espuma do mar que a Jenny lhe dera.
Por vezes os dois saiam de viagem por rumos distintos. Mas continuavam amando-se no encontro das coisas miúdas da terra.
Por exemplo, Hans reconhecia e amava Jenny na transparência das fontes e no olhar dos meninos e nas folhas secas.
Jenny reconhecia e amava Hans nas barbas dos mendigos, no perfume do pão tenro e nas mais humildes moedas.
Porque o amor de Hans e Jenny era intimo e doce como o primeiro dia de inverno na escola. Jenny cantava as antigas baladas nórdicas com infinita tristeza. Uma vez ouviram-na uns estudantes americanos, e pela noite todos choraram de ternura sobre o mapa da Suécia.
E é que quando Jenny cantava, era o amor de Hans o que cantava com ela.
Uma vez fez Hans uma longa viagem e aos cinco ano esteve de volta.
E foi ver a sua Jenny e a encontrou sentada, mãos juntas, na atitude tranquila de uma rapariga cega.
Jenny estava casada e tinha dois meninos simplesmente belos como ela.
Mas Hans seguiu amando-a até à morte, no seu cachimbo de espuma, e na chegada do outono e na cor das framboesas.
E seguiu Jenny amando a Hans nos olhos dos mendigos e nas mais humildes moedas.
Porque verdadeiramente, nunca foi tão claro o amor como quando Hans Christian Andersen amou a Jenny Lind, o rouxinol de Suécia.

Aquiles Nazoa
Poeta Venezuelano
(Tradução livre do Blog)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Realidade da Telepatia

Alô, alô, quem telepata?
É que a próxima ligação na era da comunicação passa pela telepatia.

A Fundação Allen já recebeu mais de um bilião de dollars do seu fundador, com o objectivo de conceber um Atlas cerebral e mapear os neurónios do cérebro; foi criada por Paul Allen, co-fundador da Microsoft, conjuntamente com Bill Gates. Entretanto já ficou completado o Atlas genético, disponível na rede desde 2011. Mas o projecto do qual não se fala vai bem mais longe: mapear os neurónios e tornar a telepatia possível.

Nos princípios dos anos setenta a CIA  desenvolveu e financiou um programa ultra secreto de espionagem, usando mediums, com o intuito de procurar determinadas bases militares da União Soviética e localizar submarinos russos no oceano. Oficialmente o programa foi dado por encerrado em 1995. A própria CIA andou na caça às bruxas durante mais de vinte anos?...Ou talvez não!

Esta gente perdeu totalmente o juízo? Assistiram a demasiados espectáculos de magia nos circos? Qualquer criança sabe que a telepatia não passa de truques mais ou menos bem concebidos para enganar o publico. E no entanto...

Tudo começou em 1875 quando Richard Caton detectou minúsculos sinais eléctricos emitidos pelo cérebro, ao colocar eléctrodos na cabeça de animais. Desde então, um longo caminho foi percorrido na perseguição á emissão do pensamento. O electroencefalograma deriva directamente dessa descoberta.

Porém, os sinais eléctricos emitidos pelo cérebro, na ordem de um miliwatt, ficam abafados pelo "ruído" aleatório e são de difícil compreensão. Por outro lado, embora emissor, o cérebro não é receptor: falta-lhe uma antena. Ainda que conseguíssemos receber estes sinais, seriamos incapazes de os decifrar.

A nível tecnológico busca-se soluções na física quântica. Entre os procedimentos actualmente disponíveis, usa-se o chamado PET. : injecta-se açúcar radioactivo no sangue do paciente para executar tomografias por emissão de positrões. Como o processo de pensamento requer energia, o açúcar concentra-se nas zonas activadas, emite positrões, (anti electrões) detectados por certos instrumentos e observa-se o modelo criado pela antimatéria no cérebro vivo, correspondendo este aos padrões de pensamento, sempre que se isola as partes do cérebro que são mobilizadas para cada actividade.

Outra das tecnologias desenvolvidas é o MRI, ou imagens por ressognancia magnética; o processo depende de um campo magnético que alinha os núcleos dos átomos do cérebro paralelamente às linhas de campo. Ao enviar uma radiofrequência ao cérebro do paciente os núcleos oscilam. Quando os núcleos mudam de direcção emitem um pequeno eco de rádio detectável, assinalando a presença de determinada substancia. Por exemplo, identificando a presença de oxigénio, visto que a actividade cerebral requer esta substancia; pode-se assim isolar o processo de pensamento. Como hoje em dia se conseguem analisar porções de cérebro na ordem de meio milímetro em fracções de segundo, podem-se identificar e traçar padrões de pensamento cada vez mais precisos.

Outro ramo de investigação tenta criar um dicionário do pensamento através da actividade cerebral produzida por cada palavra. E naturalmente a criação de um interface cérebro-computador.

As diversas fases do "projecto telepatia" dependem do desenvolvimento das seguintes tecnologias:
- Mapeamento preciso de cada neurónio no cérebro. Trata-se de um trabalho titanesco, tendo em conta
  a nossa arquitetura cerebral, e o número astronómico de neurónios em causa.
- Recepção e interpretação das emissões cerebrais. Refiro a pequenas máquinas, leves e portáteis
  baseadas em magnometros atómicos supersensíveis a minúsculos campos magnéticos, munidas de
  um chip para interpretação.
- Criação de novos interfaces cérebro-computador. Os interfaces existentes têm uma reduzida
  capacidade e continuam dependentes do mapeamento actualmente em curso. Terão ainda que sofrer
  uma miniaturização extrema para poderem integrar o tradutor emissor-receptor.

Outra boa notícia é que desde logo não necessitará mais de aprender línguas, pois poderá comunicar mentalmente com quem quiser. Imensas outras possibilidades se abrirão ao ser humano, e desde já se está pensando no passo a seguir á telepatia; estudar diretamente os neurónios para libertar um poder ainda mais importante: a psicocinese. (O poder da mente sobre a matéria).

Amordaçados pela Liberdade


Se cada um é responsável pelo que diz e faz num determinado espaço, Internet ou outro, porque razão os agentes da rede se preocupam agora com o conteúdo e censuram o usuário? Quando uma pessoa vê a sua vida privada invadida e publicada num determinado site, quem é o responsável? O site, ou quem lá colocou a publicação? Parece evidente: o autor de facto, e não a plataforma que o acolheu. Porém se o legislador responsabiliza o site ou a plataforma, obrigará esta entidade a garantir uma censura acérrima ao usuário por receio de represálias legais. A partir de então a censura fica funcionando em pleno e as liberdades de expressão e de imprensa irremediavelmente comprometidas. Assim quando qualquer um de nós detiver uma informação relevante e de interesse contrário ao de um político influente, por exemplo, incorrerá no risco de não o puder divulgar. A vergonha do que está acontecendo com Wikileaks, o envolvimento da Paypall e outras organizações, é absolutamente demonstrativo daquilo que nos espera se não reagirmos.

Pretende-se agora reflectir sobre a relação entre liberdade de expressão e a Internet, atendendo aos recentes desenvolvimentos legais nos EUA, que acabam afectando todo o mundo pelo facto das plataformas de gestão da Internet se encontrarem aí alojadas.
O direito de expressão, direito fundamental como muitos de nós o entende, não é percebido como absoluto, donde uma luta na qual as autoridades tentam definir limites, e outros se erigem contra essa regulamentação.

"Quando se pode dizer tudo, a verdade fala por si própria, e o seu triunfo fica assegurado", dizia Marat.
No entanto dois países promulgaram a liberdade de expressão na própria constituição em finais do século XVIII: Os EUA e a França.
"O congresso não fará nenhuma lei que resuma a liberdade de discurso ou de imprensa; ou o direito das pessoas de requerer sobre o governo a emenda das ofensas". (Primeira emenda Constituição dos estados Unidos da América).
Portanto não se trata apenas do direito á livre expressão, senão também da liberdade de escrever e opinar na imprensa como parte do direito básico de expressão.
A França ao colocar a carta dos direitos do homem na constituição, não podia ser mais clara: "Todo o cidadão pode falar, escrever e imprimir livremente".

A partir da segunda metade do século XX a ONU declara os mesmos Princípios tornando-os Universais e Transfronteiriços, considerando a falta de liberdade de expressão como causa das inúmeras barbaridades cometidas no mundo: "Toda a pessoa tem direito à liberdade de expressão...sem consideração de fronteiras", declara.
Outras organizações, como a Convenção Europeia, no artigo 10, adoptaram as mesmas disposições. Assistimos ao longo da história a inúmeras tentativas de regulamentar e circunscrever uma liberdade no entanto consagrada e muitas vezes confirmada como direito universal.

 A invenção da imprensa constituiu a primeira grande novidade em termos de comunicação massificada. Com a ascensão da prensa escrita, e posteriormente do audiovisual como meios de divulgação de ideias, a humanidade atingiu novos patamares de interligação. Finalmente chegou a Internet, tornando o planeta completamente transfronteiriço em termos de difusão, numa dinâmica que escapa ao control dos estados ainda baseados em fronteiras terrestres.

Se ponderada a liberdade de expressão na Internet como implicação directa daquela a que nos habituamos noutros suportes de comunicação, e consequentemente regulamentada pelos mesmos deveres e responsabilidades para além daquilo que atenta contra os desvios de sociedade, ocorrem-me  duas ordens de limitações:
- Aquilo que atenta contra a pessoa humana: a sua intimidade, difamação e propagação de ódio sob todas as formas.
- Segurança pública e nacional, desde que regulamentada no pormenor afim de não servir outros fins para além daqueles anteriormente determinados.

Onde Acontecem as Batalhas:
A Internet é simultâneamente a aposta nos direitos de expressão e o campo de batalha onde se esgrimem os argumentos...não é por acaso.

A todos, desejo uma quente primavera!


Foto por : Manuel Castro. Arte contemporânea cubana

segunda-feira, 19 de março de 2012

A Gaiola do Internauta

A luta entre os gigantes provedores de plataformas de internet não é nova, apenas se agudizou. Neste quadro insere-se a queixa (demanda) de yahoo contra facebook, onde a primeira reclama para si o direito patenteado de mensajaria, publicidade e sobretudo o acesso aos dados privados dos usuários. Na sequencia temos de analisar como esta boa gente começa a intervir muito seriamente com as liberdades individuais e a famigerada liberdade de expressão.
No presente a soma dos dados sobre cada um de nós, dispersos entre a google, microsoft, facebook e yahoo, permite o aceso ás nossas vidas privadas, desde preferencias alimentares, status social, o que escrevemos ou lemos; nem os nossos hábitos mais ínfimos lhes escapam. Desta maneira traçam retratos robot, esquiços que vendem ao melhor preço para atingir lucros faraminosos, e a termo, o control absoluto do comportamento de cada um.
Obviamente, a "net" passou a fazer parte das nossas necessidades básicas, por excelência um local de liberdade onde se podia dizer tudo sem receios, pois por anos considerámos a rede coisa segura, sem imaginar que tanta informação podia vir a ser compilada colocando em causa os direitos fundamentais do citadão.
A Yahoo parece uma empresa exangue, desesperada pela falta de novidade, moribunda e ultrapassada devido a uma aliança com a facebook, em que esta soube aproveitar os endereço dos usuários da outra para multiplicar por três a sua cobertura de clientes. Não passa portanto de um daqueles episódios em que cada plataforma luta por base de dados, e nós somos o objecto impotente da luta.
A questão da base de dados é essencial e vinculativa no que a esses gigantes diz respeito. Quanto a nós, meros piões do grande jogo, é aqui na rede que teremos de lutar para começar a inverter a concentração de informação, obrigar o legislador a refrear o poder dos detentores da mesma, como medida séria de prevenção.
Assiste-se, com impotência, ao fenômeno inverso, aquele em que por um lado os nossos registos ficam cada vez mais accessíveis a qualquer crápula capaz de os comunicar, e por outro lado à tentativa de limitar a liberdade de expressão do usuário na internet, por parte de diferentes governos, além dos próprios gigantes da  informação também se inclinarem  nesse sentido com medidas próprias. (últimos exemplos: o "panda" da Google, ou a mudança de domínio de sites criados pelo usuário, sem o informar nem lhe pedir consentimento)
Frequentemente para indexar um simples blog, ou mesmo um artigo num agregador, chegam a perguntar o nome, o sexo, a idade, estatuto marital, quanto ganha, a profissão, o nível acadêmico, o endereço, e até, como no caso do "sapo" o número de contribuinte. Curiosamente (?) os políticos olham para o lado.
Liberdade ordenada, pois, mas como disse o Henri Leclerc: "A liberdade de dizer tudo não tem inimigos senão aqueles que querem se reservar o direito de fazer tudo"
Que podemos nós fazer, como reagir? Comecemos por denunciar a situação, insistentemente aqui na net, nos vossos blogs, nos sites onde possam comentar e manifestar o vosso direito à indignação. Entretanto mandemos informação errada sempre que tenhamos que responder a perguntas de indole pessoal.
Independentemente das motivações, a informação de cada um também pode se acessada por hackers, como no caso aqui reportado: http://folha.com/no1063044

Podemos, pela analogia que a historia nos permite, tentar perceber melhor a perspectiva que nos espera em termos de liberdade de expressão; mas isso será tratado num próximo post.

* Oleo sobre tela: Felicidad Garantizada de Denis Nuñes Rodriguéz

quinta-feira, 15 de março de 2012

Zigomáticos

O subdesenvolvimento zigomático* em determinada faixa da população envolve um grave risco para a saúde pública.

                                                                                                                                                   

Com efeito, estudos recentes demonstraram como a grave deficiência de humoristica numa grande maioria dos agentes da classe politica explica-se pelo subdesenvolvimento do músculo zigomático* e a hipertrofia acentuada da mandíbula, nomeadamente o pterigoideo**  lateral que auxilia na depressão e determina a projeção para a frente, bem como os movimentos de lateralidade que permitem a recentralização. Eis a razão pela qual um politico não ri nem sorri; apenas desloca a mandíbula.
                                                                         
Se apanhados desprevenidos pode-se administrar humor (a pequenas doses) nesses pacientes, conhecendo porém a resistência  que desenvolveram à terapia durante muitos anos. Normalmente aplica-se uma piada envolvendo um inimigo politico, com cuidado, nunca antes das vinte horas de modo a permitir o relaxamento mandibular durante o sono, para evitar eventuais crispações.

Assiste-se atualmente na população, a uma epidemia de pterigoedigitite aguda, acompanhada de extremas depressões, sem que se verifique a deslocação mandibular, própria de governantes e boys da classe em referencia. Com efeito a ausência de deslocação mandibular na população provoca  fortes acessos de ácido biliar cujas consequências ultrapassarão a simples depressão derivando em pandemia, cuja terapia passaremos a analisar num próximo post.

 O nosso atual conhecimento da raiz do problema aconselha a que se elimine toda a classe politica sem excepção, e se coloque em regime de quarentena todos aqueles que, com essa gente, tivessem tido o mais pequeno contacto que fosse. Acautelar igualmente os juízes de tribunais, (também agentes patológicos) bem como os funcionários que os acompanham.

Ficou determinado, sem sombra de contestação, que um sistema de justiça baseado na inquisição contamina determinantemente os neurónios que comandam zigomatas e pterigoedeos, com efeitos colaterais nas sinapses periféricas.

Os subúrbios, identificados como agentes fardados, consideram-se recuperados após férias, nunca menos de seis meses, passadas na sibéria, e após multa por estacionamento, falta de cinto, telemóvel ao volante, falta de seguro na viatura, falta de inspeção periódica, falta de pisca no lado direito, transporte sem guia das respectivas ferramentas de trabalho, transporte de sobras de alguma obra em curso ou em vias de acabar, idade do capitão, e velocidade do vento vindo do Sud-oeste. Estas multas devem ser pagas de imediato com os juros decorrentes dos seis meses de  atraso (porque foram de férias).
Visto que os juízes ficaram "acautelados" juntamente com os da outra classe (a politica) não poderão ser condenados a qualquer pena menor, nem a pena ser comutada. Caso não ocorra o acima ordenado, voltam a passar mais seis meses de férias na sibéria, escolhendo-se, por razões humanitárias, a estação natalícia, para o efeito. Naturalmente a questão dos juros das multas anteriores voltam a acumular e assim por diante...

O humor não sendo injetável, nem a tecnologia nos permite de o administrar sob forma de comprimido, fica assente que quem não não possua uma pinga dele,  passe a acompanhar os supra-citados na respectiva terapia.

* Musculos dilatadores dos lábios
** Musculo da mastigação

quarta-feira, 14 de março de 2012

ABERTURAS TEMPORAIS


Pretendendo complementar o post anterior, deixo-vos com uma pequena análise de algumas passagens do livro sobre a teoria do desdobramento.

"Eu era, eu sou e eu serei, simultâneamente em tempos diferentes.
O passado, o presente e o futuro são três realidades simultâneas transcorrendo a velocidades diferentes.
A tua vida presente é o futuro possível de um passado real e actual....mas também é o passado real e actual de um  futuro possível...onde se fabricam soluções potenciais".

Onde o Jean Pierre Garnier Malet nos coloca como aceites as duas seguintes questões:
O tempo é uma cebola com buraquinhos (portais) que nos permitem passar de um para outro nível?
Temos capacidade de inferir sobre o futuro?

"Tudo começa por um desdobramento do tempo..... /.....Imaginemos a utilização de dois mundos idênticos onde o tempo não transcorre á mesma velocidade. Porquanto um tempo imperceptível de uma milionésima parte de segundo transcorre no primeiro, o segundo vive um tempo acelerado, digamos durante horas, o qual permitiria apreender tranquilamente a melhor maneira de franquear certos obstáculos. Um intercâmbio de informação entre os dois mundos traria de maneira instantânea  no tempo normal a informação necessária para chegar directamente ao objectivo de maneira instintiva ou intuitiva. Por demais os numerosos fracassos realmente vividos num mundo seriam memorizados no outro para desta forma nunca haver ideia nem vontade de os viver.../...O presente actualiza futuros potenciais criados no passado. Poderíamos pois criar o futuro em cada instante por aberturas inobserváveis entre instantes observáveis com a aparência de um transcurso de tempo continuo. A nossa vida não passaria de uma sucessão de instantes perceptíveis, actualizando impulsos imperceptíveis resultantes de um futuro apresentado por um duplo nas aberturas de um tempo cujo transcurso sempre pareceria idêntico a ele mesmo."
A perspectiva atrás enunciada pelo autor supõe portanto que o nosso duplo busca informação num mundo paralelo em que o tempo transcorre mais rápido do que no nosso e nos trás de volta informação relevante para tomar-mos as nossas decisões no nosso mundo.

Todavia, mais á frente o Jean Pierre Garnier Malet enuncia o seguinte: "Seria pois a existência de vários tempos a única maneira de construir um futuro num espaço para viver melhor no outro? Desta maneira a relatividade do tempo não seria uma singularidade misteriosa do nosso universo, mas simplesmente a consequência directa de uma propriedade muito mais essencial do transcurso do tempo: a sua variação imperceptível e estroboscópica necessária para um desdobramento vital. Envelhecer mais rápido num tempo acelerado permitiria portanto fabricar possibilidades futuras antes de as viver no tempo normal. Bastaria posteriormente actualizar a cada instante o melhor dos potenciais já vividos para viver bem no dia a dia."
Neste caso se o autor supõe a nossa intervenção na construção do futuro do próprio espaço "acelerado";  necessariamente estaremos presentes, onde o nosso duplo irá buscar informação que nos transmite no espaço "mais lento" em que nos encontramos. Conjecturo, que o nosso duplo iria na realidade buscar informação a ...nós próprios.

* Tradução livre do autor do blog.
** As obras do Jean Pierre Garnier Malet encontram-se á venda nas "Fnac", e "Bertrand", em francês.

terça-feira, 13 de março de 2012

TEORIA DO DESDOBRAMENTO




A fada madrinha que acarinha e protege não é apanágio da imaginação das crianças; muitos adultos também acreditam num anjo guardião exclusivo. A crença dos mais pequeninos é entendida por ingenuidade, e a dos mais grandes por fé, ou simplesmente credulidade.  
Mas não é que um cientista, (físico de formação) emite uma teoria, segundo a qual todos nós temos um duplo... invisível!                                                    
Em fisíca quântica, fala-se de "amaranhamento" quando duas partículas comportam-se como se fossem gémeas com capacidade telepática; o que acontece a uma sucede na outra em simultâneo independentemente da distancia entre elas, violando segundo se pensa, a premissa segundo a qual nada pode ultrapassar a velocidade da luz.                                            
A matéria é energia, desde logo também somos energia, afirma Jean Pierre Garnier Malet. Até aqui tudo bem, mas as coisas tornam-se curiosas quando ele nos afirma pares, teríamos um duplo invisível com o qual não sabemos comunicar conscientemente, embora o façamos durante o sonho paradoxal. Para viver melhor, vamos dormir! Mas a teoria não acaba aqui! 
De acordo com o seu autor, o nosso duplo é um ser feito de energia que viaja por aberturas temporais, e pode nos ajudar a tomar decisões, visto que ele visitou vários futuros prováveis e consequente nos pode aconselhar sobre as decisões a tomar agora, ou seja a escolher no presente qual o melhor futuro para nós.                                                                        
Outra particularidade da teoria prende-se como os nossos pensamentos; cada pensamento nosso abre um portal de futuro possível. Entre outros, dá este exemplo: imagine que está esperando para atravessar a rua, mas alguém de má fé o empurra e você fica com vontade de o matar. De forma instantânea constrói-se um futuro assassino na vossa abertura temporal. Pode modificar isso com uma sensata modificação de informação; com um pensamento apaziguador repõe a tranquilidade. Sem a necessária modificação do seu potencial pode ocorrer uma desgraça. Imagine que um individuo de má fé empurra mesmo uma pessoa para a estrada e dá-se um atropelamento. A história até bastante parecida com a sua. Mas frente á televisão onde ouve a descrição do assassinato, furioso contra o assassino, não se interroga se não é co-responsável, na medida em que deixou aquela possibilidade de futuro possível em aberto?
O Senhor Jean Pierre Garnier-Malet escreveu dois livros* para defender a sua teoria, nos quais também divulga haver um conjunto de regras para contactar com o nosso duplo. Para o efeito ele organiza sessões em diversos países.


* Double Coment ça Marche 
* Changez  Votre Futur par les Ouvertures Temporelles
Para saber mais sobre as particulas a que o autor refere: 
http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=chip-atomico-gerador-pares-atomos-entrelacados&id=010110110505 

Site do Sr. Jean Pierre Garnier Mallet: www.garnier-malet.com
** Imagem: Kadinsky (sem título)



segunda-feira, 12 de março de 2012

VONTADES DIVINAS


                                             

Para FeMi-GueLix, sumaríssimo Sacerdote das Letras e Estados Espirituais Avançados.

Caro Guelix,

Pedes, na tua última missiva, um breve historial da evolução da sociedade dos terráqueos, desde a última iniciativa de Bru-Xá, até este momento.

Desde então transcorreu um continuo histórico que abarca cerca de vinte séculos na terra, logo este pequeno resumo não poderá relatar o particular para exemplificar o geral, o que me obriga a descrever meramente as linhas de orientação decorrentes da iniciativa, sem me deter nos diversos contextos a que isso obrigaria. Em suma, de acordo com as tuas instruções, o relato que te deixo pretende descrever as consequências genéricas da nossa última intervenção neste planeta.

Com efeito, quando anteriormente as populações adoravam uma plêiade de divindades, o ação de Bru-Xá determinou um novo modelo de sociedade, nomeadamente pela sugestão do modelo monoteísta. Esta simplificação de credo permitiu unir povos muito diferentes sob os mesmos princípios e valores, apoiados em dez mandamentos de condutas essenciais, base legislativa bastante para todos viverem em harmonia.

Consequências politicas e poder espiritual:
A nova religião começou por unir doze pequenas tribos, que ainda hoje sobrevivem graças à herança cultural que daí adveio.  Quando o seu território foi anexado por um grande império, as crenças deste povo acabou contagiando o invasor, e em apenas três séculos este adotará o modelo monoteísta como padrão oficial, sendo o Imperador o chefe da nova religião. O poder profano apoderou-se do imaginário religioso afim de conter o domínio espiritual. Desde logo ficou entendido que o cargo de Reis ou Imperadores deriva da vontade divina, ideia que se perpetua até hoje. Quando  um século mais tarde o Império se desmoronou, o chefe da nova religião, representante da divindade única sobre a terra, coroava Reis e Imperadores, instalando-se na sua nova capital; a mesma do extinto império.

 O poder secular deriva em norma teocrática, (embora temperada por noções de soberanias territoriais e poder de expressão do povo), contrariando ipso facto a subordinação da existência do poder á sua moralidade, se definida em termos de busca de prosperidade e liberdade para os povos.

Cerca de três séculos depois desta transformação no império, eis que nasce outra fé monoteísta, na mesma região que deu origem culto que referimos; um século mais tarde também se transforma em  império territorial, econômico, politico e cultural. Ambos impérios coexistem, no essencial com as mesmas crenças, mas ambos ambicionam o poder absoluto; o secular e o espiritual. Quatro séculos depois, surge o conflito entre os dois impérios, prolonga-se por três séculos, sem que as feridas de ambos os lados jamais se curassem completamente. Duas religiões oriundas do mesmo berço, com as mesmas normas e crenças, objectam-se mutuamente, cada uma delas tentando ganhar mais adeptos, mais influencia sobre a outra. Mais uma vez o poder secular vê-se subjugado ao poder espiritual.
Consequências sociais e civilizacionais.

Usos, costumes, investigação, ciências e tudo aquilo relativo á atividade humana permaneceu enquadrado nos preceitos do poder das religiões. A coexistência entre a razão e a fé virou impossível, pois apenas agora, nesta era, se assiste a um tímido acordar dos espíritos; concebivelmente a civilização começa a despertar de uma longa letargia intelectual, mas as amarras ao passado teocrático permanecem demasiado fortes impedindo a emancipação moral, intelectual e espiritual das populações.

O que aqui relato serve essencialmente para prevenir quanto á prudencia das nossas intervenções na Terra. Consequências nefastas ocorrem da forma mais inesperada; quem julgaria que promovendo o amor e a igualdade entre pessoas e povos, acabássemos por gerar intolerâncias, guerras, ignorância, e mais sede de poder?

 Não posso deixar de submeter ao teu sábio conselho a seguinte questão: deveríamos banir as religiões que implantámos, ainda que isso não nos redime do que fizemos mal?

Teu Fis-TaSo



sábado, 10 de março de 2012

DESCOBERTA DA VIDA





Há dias extraordinários e poetas que singularizam o extraordinário! A "Descoberta da Vida" pertence á exaltação do momento que não se deteve e porém se eterniza no verso de César Vallejo.


DESCOBERTA DA VIDA



    Senhores! Hoje é a primeira vez que dou conta da presença da vida. Senhores! Vos rogo, deixem-me livre um momento, para saborear esta emoção formidável, espontânea e recente da vida, que hoje pela primeira vez, me extasia e me afortuna até ás lágrimas.

O meu gozo provém do inédito da minha emoção. A minha exultação vem de que antes não senti a presença da vida. Nunca a tinha sentido. Mente quem diga que a tenha sentido. Mente e a sua mentira me fere a tal ponto que me faria desgraçado. O meu gozo vem da minha fé nesta descoberta pessoal da vida, e ninguém pode ir contra esta fé. A quem o fizesse se lhe cairia a língua, cairiam os ossos e correria o perigo de apanhar outros, alheios para se manter de pé ante os meus olhos.

Nunca, senão agora, tem havido vida. Nunca, senão agora, tem passado gentes. Nunca, senão agora, tem havido casas e avenidas, ar e horizonte. Se viesse agora o meu amigo Peyriet, diria-lhe que não o conheço e que devemos começar de novo. Quando, de facto, terei conhecido o meu amigo Peyriet? Hoje seria a primeira vez que nos conhecemos. Diria-lhe para se ir e regressar, e entrar para me ver, como se não me conhecesse, é dizer, pela primeira vez.

Agora eu não conheço ninguém nem nada. Adverto-me num país estranho, no que tudo atinge relevo de nascimento, luz de epifania imarcescível. Não senhor. Não fale para esse cavalheiro.
O Senhor não o conhece e lhe surpreenderia tão inopinada fala. Não ponha o pé sobre essa pedrinha; quem sabe se não é pedra e vá você dar no vazio. Seja precavido, posto que estamos num mundo absolutamente desconhecido.

Quão pouco tempo tenho vivido! O meu nascimento é tão recente que não há unidade de medida para contar minha idade. Se acabo de nascer! Se ainda não vivi todavia! Senhores; sou tão pequenino que o dia apenas cabe em mim.

Nunca, senão agora, ouvi o estrondo dos carros, que carregam pedras para uma grande construção do boulevard Haussmann. Nunca, senão agora, avancei paralelamente à primavera, dizendo-lhe: "se a morte tivesse sido outra..." Nunca, senão agora, vi a luz áurea do sol sobre a cúpulas do Sacré Coeur. Nunca, senão agora, se me acercou um menino que me mirou profundamente com a boca. Nunca, senão agora soube que existia uma porta, outra porta e o canto cordial das distancias.

Deixai-me! A vida deu-me agora em toda minha morte.


* César Vallejo, foi um poeta  peruano, considerado um dos maiores do século XX. Partilhou com o
                       nosso Fernando Pessoa, o Génio, a época e a falta de reconhecimento.
** "A Descoberta da Vida" é parte do livro "Poemas Humanos".




sexta-feira, 9 de março de 2012

Humor sim, Guerra não

Segundo relatório ao Cuidado de FeMi-GueLix, Alto Sacerdote das Letras e Estados Espirituais Avançados.

Caro GueLix,

No cumprimento das tuas instruções comecei a promover o humor junto aos habitantes da Terra, como meio de travar os seus ímpetos guerreiros. Tentei inculcar a ideia nos mais jovens, pois a influencia destes, nos mais velhos, me pareceu essencial.

 Devo te informar que o nosso treinamento na pronunciação das línguas Terrestres continua a sofrer algumas deficiências; assim, quando lhes disse "make laugh, not war" eles perceberam "make love not war". Em desespero de causa , desloquei-me para outro continente onde apregoei: "Faites l'humour, pas la guerre". Estes interpretaram "faites l'amour, pas la guerre". Numa última tentativa, noutra região, lhes disse: "hagan el humor, no la guerra". Imagina que eles entenderam "hagan el amor, no la guerra". A termo, receio ser responsabilizado pela sobrepopulação do planeta.

 Felizmente há aqui um pequeno território, chamado "Alentejo", onde me perceberam apesar da pronúncia; agora queixam-se da baixa natalidade na região. Mas fazem-no com humor!

 Abreviando, entre risos e anedotas, consegui uma reunião com um ministro da guerra, (aqui dizem da defesa, porque não há ministros do ataque) que por sua vez me marcou entrevista com outro,...enfim, encurtando uma história longa, estes receiam que outros territórios desenvolvam um ustensilio tão inútil como um que eles próprios já possuem: a "bomba atômica". Trata-se de um engenho absolutamente inútil porque se um dos campos o usar, o inimigo riposta, toda a gente morre, e ninguém ganha a guerra. Um imbróglio sem nome, imagina!

Não te querendo cansar com pormenores, passo ao essencial: consegui convencer alguns altos responsáveis militares que o humor podia se transformar num instrumento poderoso. Em pouco tempo formaram brigadas e batalhões encarregados de inventar histórias malucas como acessório contra os outros. Também imaginas, suponho, que em seguida me reuni com os outros, os inimigos destes, e acabei convencendo-os que se estes estavam desenvolvendo o humor para os combater, melhor seria se fizessem o mesmo; e consegui!

O único problema é de ordem logístico: Todos os grandes especialistas provêm do Alentejo onde ambas facções os recrutam a peso de ouro. Devido á baixa natalidade nessa região, pelas razões que enunciei anteriormente, tomei outra iniciativa: publicitei aos alentejanos que deviam fazer "amor e não a guerra"; passaram a fazer humor e amor em simultâneo; gente trabalhadora! Prevê-se um incremento importante de pequenos grandes peritos nos próximos nove meses.

O teatro de guerra ganhará atores de...teatro! Neste preciso momento afinam-se histórias e anedotas em ambos os campos, enquanto equipas de investigadores preocupam-se em desenvolver antidotos contra o riso, conscientes que a arma final capaz de derrotar uma explosão atômica, será...
...uma explosão de alegria.

Também aqui mando uma "resposta terráquea" à minha presença no planeta deles. Pela ocasião  inventaram um novo gênero musical chamado "chá-chá-chá."


Como sempre aguardo os teus conselhos e comentários.

Teu

Fis-TaSo

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres de Pluma

Para mulheres que saibam voar!



Marc Chagall: "Os amantes voadores

                                       
Um poema de Oliverio Girondo, poeta argentino
                                                    
"Não sei se me importa um pito".


Me importa pouco que as mulheres
tenham os seios como magnólias ou como passas de figo;
uma tez de pêssego ou de papel de lixa.
Dou uma importância igual a zero,
ao facto de que amanheçam com um hálito afrodisíaco
ou com um hálito insecticida.
Sou perfeitamente capaz de lhes suportar
um nariz que sacaria o primeiro premio
numa exposição de cenouras;
Mas isso sim! - nisto sou irredutível - não lhes perdoou,
sob nenhum pretexto, que não saibam voar.
Se não souberem voar perdem o tempo as que pretendam me seduzir!
Foi essa - e não outra - a razão para que me apaixonasse
tão loucamente, de Maria Luisa.
Que me importavam os seus lábios por entregas e seus anseios sulfurosos?
Que me importavam as suas extremidades de palmípede?
E os seus olhares de prognóstico reservado?
Maria Luisa era uma verdadeira pena!
Desde o a amanhecer voava do quarto á cozinha, 
voava da sala de jantar à despensa.
Voando me preparava o banho, a camisa.
Voando fazia compras, seus afazeres...
Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando,
de algum passeio pelos arredores!
Ali ao longe, perdido entre as nuvens, um pontinho rosado.
Maria Luisa! Maria Luisa!... e em poucos segundos, 
já me abraçava com suas pernas de pluma,
para levar-me, voando a qualquer parte.
Durante quilômetros de silencio planeávamos uma caricia
que nos aproximava do paraíso;
Durante horas inteiras nos aninhávamos numa nuvem,
como dois anjos, e de repente,
em caracol, em folha morta,
a aterrissagem forçada de um espasmo.
Que delicia ter uma mulher tão leve...,
embora nos faça ver, de vez em quando, as estrelas!
Que voluptuosidade a de passar-se os dias entre as nuvens...
de passar-se as noites num único voo!
Depois de conhecer uma mulher etérea, 
pode oferecer-nos alguma classe de atrativos uma mulher terrestre?
Verdade que não há diferença substancial
entre viver com uma vaca ou com uma mulher
que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do chão?
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender
a sedução de uma mulher pedestre, 
e por mais empenho que ponha em concebê-lo, 
não me é possível nem sequer imaginar
que se possa fazer amor sem ser voando.


(tradução livre do blog)


  

PARANORMAL ACTIVITY




                              MENSAGEM INTERCEPTADA E DECRIPTADA PELA NASA:

"Relatório ao cuidado do Sumaríssimo FeMi-GueLix, Alto Sacerdote das Letras e dos Estados Espirituais Avançados.

Caro Gue-Lix,

Embora recentemente chegado ao planeta Terra, afim de completar a missão do meu antecessor Bru-Xa, posso já confirmar que os habitantes deste planeta pouco ou nada evoluíram, desde o último relatório do referido colega, apesar de constatar ligeiras modificações.

As tribos dessa altura mudaram de denominação: os germanos tornaram-se "alemães"; os lusos ficaram "portugueses"; os ibéricos "espanhóis"; os gauleses, "franceses", etc. Celebraram-se também novas alianças entre tribos: bretões, francos e gauleses se uniram baixo a apelação de "franceses", enquanto os vizinhos das comunidades helvéticas se aliaram sob a designação de suíços.

Mas como disse, permanece tudo como no tempo de Bru-Xa, apesar das alianças que se fazem e desfazem segundo mudam ventos e vontades; a mesma sede de dominação, mas agora de forma sistematizada.

Passo a explicar:
Numa arena de cem metros por cinquenta, (ver Coliseu de Roma, (no relatório de Bru-Xa)) expõem onze indivíduos de cada tribo, e dão-lhes uma só bola, com quinze mil pessoas de cada etnia presenciando o espetáculo, e manifestando ruidosamente o apoio aos seus campeões.
Agora já não são os animais que combatem contra os guerreiros. Os guerreiros combatem entre eles e usam uma bola. Sucede o inexplicável; uns tentam colocar a bola num determinado sitio no campo do adversário, e vice versa. Naturalmente ganham aqueles que tiverem mais sucesso no intento, o que eliminará os adversários. Ainda não sei como o fazem, mas suponho que seja por eletrocução plasmática.. Tentarei confirmar. Ficam também eliminados os espectadores que estavam a favor dos que perderam, incluindo mulheres e crianças. Se visses como choram, como gemem....enfim, uma autentica desgraça; é tudo muito cruel.

O que não entendo é porque durante a batalha de onze contra onze apenas usam os pés. Investigarei mais sobre o tema, mas tenho ideia que lhes fizeram uma ligeira ablação ao cérebro para impedir os braços de reacionarem.

Entretanto fui sabendo que de quatro em quatro anos juntam-se tribos de todo o planeta para esta carnificina a que chamam "football".
Existem outros combates apelidados "olímpicos", em que podem usar pés e mãos, mas fiquei sem ter a certeza se os podem usar em simultâneo.

Aguardo as tuas instruções e conselhos para dirigir as minhas investigações.

Sempre teu

Fis-TaSo "

quarta-feira, 7 de março de 2012

O CALENDÁRIO DOS POETAS




Desde sempre o homem tentou definir, medir, nomear, domesticar o tempo, com o objectivo de torná-lo mais familiar.

 Os fantasiosos calendários ocidentais, (não falaremos dos Mayas) permaneciam tão defeituosos quanto dependentes de vontades politicas, religiosas ou outras; assim o mês de Outubro,  por exemplo, podia perfeitamente se prolongar até à primavera, ou calhar em pleno inverno se tal fosse o desejo do manda chuva do momento.
Também acarretava uma série de dissabores aos cobradores de impostos pela impossibilidade de cobrança em data fixa.                                                                                                       

Imaginem a colecta que se perdia, e aquela que apenas se cobraria pelas calendas gregas.
 Até que Júlio César, cansado de tanta confusão, pediu a um cientista grego (grego, sim, pois o Júlio tinha sentido de humor) para refazer o calendário. O cientista grego mediu o curso da terra em volta do sol, dividiu por doze e depois bastou atribuir nomes de Deuses romanos aos meses. O Senado honrou então o famoso Imperador, dando o seu nome a um dos meses; Julho, com trinta e um dias. Mais tarde, certo Augusto, Imperador de profissão, não querendo ficar atrás do seu ilustre predecessor, também exigiu um mês com o seu nome, e, claro está, sem um dia menos que o César.

Sacrificou-se assim o mês de Fevereiro, e nos quedamos por aqui durante dois mil anos.

Concretamente, vou propor-vos um novo calendário sem Imperadores nem Deuses romanos.

Sugiro:

  • Para os meses....................................nomes de poetas e escritores
  • Para os feriados.................................nomes de grandes obras
  • Para os dias santos............................nomes daqueles que justificam a nossa memória. (Molière, Homero, Dante, Goethe, Cervantes, Shakespeare, Fernando Pessoa, Lorca, La Mistral, Vallejo, Saramago, Vinicius de Moraes, Neruda,, ...não fecho as parênteses. 
  • Para os dias de semana, nomes de criadores atuais, amovíveis por morte.
  • Do mesmo modo que o Júlio César teve o seu mês, proponho ainda o nome da primeira pessoa que subscreva a esta ideia para o primeiro dia da semana laboral. (atual segunda feira).                                                     

Confesso a minha inconsciência quanto ao absurdo deste repto! Permitam-me justificar.

- O criadores não se satisfazem com dias numeráveis e anos bissextos.
- Os poetas e escritores poderão assim dispor de datas adequadas à escrita dos seus sonhos, porque
   passam a dispor de "tempo próprio".
- As emoções deixam de se assimilar ás cebolas, quando se têm de comprimir os olhos para não chorar;
   haverá dias de emoção oficiais.

Parece-me que um calendário com nomes de Deuses de outros tempos deixou de fazer sentido. Portanto, façamos como os romanos: prestemos homenagem aos nossos.

Agora!

Não esperemos que eles morram.

Salvador Dalì: A Persistência da Memória 

FALTA CUMPRIR-SE PORTUGAL !




Pela grandiosidade da letra, 
e pela beleza da voz: 
Dulce Pontes interpretando Fernando Pessoa
(Embora saiba que muitos já conhecem)

Segunda parte / MAR PORTUGUÊS, da Obra MENSAGENS
I - O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te e foste desvendando a espuma,

E orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal ! 

segunda-feira, 5 de março de 2012

ACELERADOR DE PALAVRAS



                                                   René Magritte: La Trahison des Images
                                                                        "Isto não é um Cachimbo"

Os tiranos nunca lidaram bem com a palavra, por isso quem a rime, a acaricie, a decomponha até lhe conhecer as entranhas, encorre no risco da mordaça; poetas e escritores, cuidem-se! Ela é livre, mas o seu uso nem tanto.
Alguns, julgando poder dominá-la, criaram o seu antónimo: a propaganda. Deixemos esses malfeitores de lado; não nos interessam. A propaganda está para a palavra como o ignorante para a enciclopédia. 
Num texto anterior já vimos como ela é composta de letras, seus átomos, donde decorre que se a palavra tem átomo, logo contem  energia...por conseguinte se fala da “força da palavra”.  Porém ninguém viu uma “guerra de palavras” causar ferimentos.
Há quem diga que ela engana. Não é verdade!, apenas as pessoas enganam com palavras. Usá-la não é a mesma coisa que lhe conhecer os meandros, ou a saber fabricar, tal como para ler as horas ninguém precisa saber o mecanismo d'um relógio suíço....embora, como este, também ela nos leve ao despertar.  
Para o comum dos mortais a palavra permanece matéria misteriosa. Corremos os perigos inerentes à experimentação, avaliámos alguns efeitos das decorrências imediatas que lhe conhecemos:  indução em erro, agente de alegria, causa de tristeza, aclaramento de verdades, confissões amorosas... enfim, serve para tudo, e no entanto a conhecemos tão mal. Que segredos encerra?
Pegando numa palavra simples como “AMOR”, composta apenas por quatro átomos, verificamos facilmente que a ordenação dos mesmos, tal como noutros elementos, determina resultados finais diversos; assim AMOR, ROMA, MORA, ORAM, RAMO, ou OMAR , nada têm em comum para além da sua composição “atómica”.  .
O problema densifica-se quando, extraídos os componentes do AMOR, nos aventuramos em combinações, usando meras preposições, conjunções ou artigos definidos como agentes de ligação: “o OMAR ORA em ROMA”, ou “o OMAR MORA num RAMO”, ou ainda “o OMAR não ORA num RAMO, nem MORA em ROMA”...   em consequência as letras estruturam-se, balanceando-se para  compor palavras que, por sua vez desenvolvem frases intrigantes.
 Não pretendo alongar-me sobre detalhes entrópicos, logo não mencionarei o peso de cada molécula, nem a família a que pertence, pois a sua manipulação requer os maiores cuidados; mesmo quando enviadas para o espaço...voltam para nós à velocidade da luz; é o chamado “efeito boomerang”,  utilizado nas telecomunicações dos satélites, característica estudada desde a antiguidade. Aliás, os sofistas gregos afoitaram-se em a amansar, usando a  chamada dialéctica.  Tão importante como o que dizemos, é a forma como dizemos as coisas, concluíram. 
Os cientistas de física quântica construíram enormes aceleradores de partículas, na tentativa de aproximação aos segredos da matéria. Do mesmo modo proponho que comecemos também a construir aceleradores da palavra afim de lhe conhecermos as intimidades.
 “No principio era o verbo” já não nos basta; agora queremos saber quais as suas letras e como se conjugava esse verbo primordial.

sábado, 3 de março de 2012

SELF-MADE-MAN







Rico, elegante, bem sucedido... Que mais deseja um homem? Este meu amigo é tudo isto. Ele que eu conheci noutros tempos, agora completamente transformado, explicou-me como, ao imigrar para os EUA, se tornara num “self-made-man”.  Traduzindo á letra significa “fazer-se a si próprio”. Também quero!, exclamei  silenciosamente.





Foi assim que iniciei o exercício de me “fazer a mim próprio”.

Comecei por comprar um espelho, uma ampulheta, um modelo de crânio humano em plástico, uma vela e três recipientes de produtos básicos. Observei, observei, mas a inspiração tardou.  O copo de água e o pedaço de pão permaneceram intocados.  Foi um enorme cocorico de galináceo quem finalmente findou a angustiante letargia.

De principio tive de decidir o que iria fazer de mim.
Fui-me fazendo.... como podia...e não despontava nada de jeito!
Num azedo de vitriólico, o espelho insultava o bom gosto.
- Bem feito! Respondia...
Trabalhar sem projeto, nem preconceito dá sempre merda, é sabído.

A ambição tem destas coisas: pensei em fazer de mim uma obra de arte. Porque não a Vénus de Milo, por exemplo? Só não avancei por causa das amputações necessárias.
Fui buscar e rebuscar todas as obras de escultura que me lembrei, mas todas elas padeciam de alguma peculiaridade encarcerante. O David do Miguel Ângelo, ficou fora de questão por “insuficiências intimas”, eliminei o beijo de Rodin na falta de parceria, a Vitória de Samotrácia  dava-me asas,  mas deixava-me sem mãos...enfim o desespero!

Felizmente a pintura podia abrir-me novos horizontes: não fora aquele ar andrógeno da Joconda, ponderaria a tentativa. Em verdade a minha altura renascentista foi breve, sofrendo um duro golpe quando me apercebi que em maioria eram retratos de nobres e príncipes. Ora eu, plebeu e republicano... Fiz-me á estrada do tempo, percorri a pintura procurando-me nela e assim iniciar a minha composição. Talvez no estilo Barroco...
Porém, a doçura das linhas barrocas combinadas com a ostentação pouco me inspirou. Tenho pena de mim, mas assim é!  Considerei ainda o classicismo, contudo aqueles personagens inspirados na mitologia grego-latina, do Poussin, Lebrun, ou Champaigne nada teriam a ver comigo.

Já sei como andam a pensar: “tão pouco se deteve no rococó, ou no neoclassicismo, e foi parar aos românticos”.  Engano vosso! Aquela atmosfera propicia ao sonho, da expressão pela sugestão não; não me ficariam bem.  Apesar do Moreau e do Klimt, nem o simbolismo me deteve  e quando cheguei aos impressionistas já andava cansado de tanto caminho percorrido.

Agora já em pleno século vinte, impressionismo, naturalismo, cubismo, expressionismo, surrealismo, enfim devido á quantidade de  “ismos”,  desisto . Em verdade, de tanta escolha só me restam duas opções:  aceito de me tornar um personagem desfocado, ou  viro  Picasseado com uma bela assinatura e um longo discurso. Opto por uma terceira via...

Finalmente sei o que vou fazer comigo. Vou esculpir-me, burilando o melhor que posso, artístico ou nem tanto, criativo ou repetitivo, feio ou bonito, pouco importa, vou persistir em me fazer eu. E se porventura houver muito, demasiado por corrigir, poderei parar. E então ficarei assim, como me vêm, inacabado, como uma sinfonia...

E se alguém, alguma vez, me chamar de “sinfonia”... respondo em Fá menor!